Quinta-feira, Dezembro 27

(8)

Sonhos de ninguém.
A sonhar com notas mudas, gestos frágeis, coisas simples,
frases ágeis.

Lembranças longíquas.

Porque os sonhos somem?

Eu não os vejo mais em cores,
como em outros pensamentos eufóricos.

Eu os quero de volta,
quero a vida de volta.
E as notas em contraste com o tédio do dia-a-dia.





delirium

Estou variando.
Por ondas desconexas, vindas de uma única sobra de mim. Por onde passo, muda e gasta, resgato fatos e destruo as monstruosas sombras e sobras de sentimento residentes no último pedaço de amor. Mas não penso em me parar. Seja por obrigação ou por vontade. Prefiro descer aos confins do ambiente e relatar minhas lamúrias comigo mesmo.



Sou um monstro,
preso no fundo de um porão.
Me jogam presas vivas, a fim de me alimentar.
Olho, mastigo, engulo, defeco, com nojo.
As vezes vomito...
Mas como!


Permaneço em vida.





Quinta-feira, Dezembro 20

.

Eu sinto medo,
um aperto no cérebro e no peito.

Aquele sentimento a pulsar,
carregando a escolha
a moralidade
e a dúvida.




Espero algo que está por vir do outro lado.





Domingo, Dezembro 16

3

Desperto de uma ilusão profunda, o corpo caminhou pelas sombras formadas nas calçadas.
Sentou-se, e aquele assobio, ah, aquele assobio... Invadiu-lhe os ouvidos de tal forma a atingir o sentimento. Fez-lhe lembrar da vida, que era a única coisa que queria esquecer.

Os minutos sendo jogados fora, e contados como inimigos mortais.
O tédio, a tristeza, e a agonia. Uma trilogia vivenciada após algumas palavras ditas, que voltam sempre a bater nas nossas costas, como forma de arrependimento.
É isso, o sentido de respirar e sonhar. É essa a recompensa, a repetição, a inconstancia e o destino.
Porque procurar tanto? Repetir sempre as palavras, os sentimentos e reciclar as utilidades do coração com cada animal que passa na sua frente?

Alguém disse algo, e desprendeu-lhe a atenção. Um sono profundo, um sono sintético e induzido.
Só queria, aquele ser, se deitar e poder sentir a respiração profunda daquilo que ama, e esquecer (ah, verdadeiramente esquecer de vez) que problemas existem, que a vida não faz sentido, que pensar é uma bobagem, que viver é um desatino, e suicidas são corajosos o bastante para admitir que o ser humano é de merda e deve voltar pra merda.









Um sorriso
se apaga.
E a perfeição
mostra sua fraqueza.





Sábado, Dezembro 15

Descrição.

Existem sombras a esconder seu verdadeiro olhar, enquanto entre seus lábios brota a mais branca e densa fumaça. Está sentada, e na mão direita um copo com líquido vermelho. Uma meia luz aconchegante e alguns sons, mas insignificantes para um momento como aquele.
Ruídos familiares.

Silêncio. Ela aprendeu de alguma forma a lhe dar com ele, sem se perder no desgosto. Sente prazer em observar as coisas caminharem, enquanto esfumaça o ambiente.
Não há beleza em sua beleza. Mas há leveza em seu falar, e dor em suas preces.

Alguém bate à porta, repetidamente, até que alguém do outro lado abra e escute as palavras sempre ditas de uma forma autoritária e cansativa.
Então, se foi, dessa vez bem rápido, mas com suspeitas.

Caminha desentoada e desajeitada até o banheiro, com luz avermelhada e fraca. Olha sua juventude morta e debruçada em drogas. Lícitas, ilícitas, tanto faz. As drogas da convivência (in)harmoniosa com os seres ao redor lhe causa asco. Até que alguém mais bonito e gentil prove que não existe mais esperança.

Ainda sim tudo parece estar perdido,
espalhado estratégicamente entre livros e cd's, na escuridão de pensar sem saber porquê, e procurar nisso algum sentido.
Os porquês de se estar ainda vivo, buscando algo frustrante, mais que a atualidade, é quase como procurar stress estantâneo.

Um bichinho asqueroso se arrasta pelo chão refletindo o teto. Alguém mais forte fisicamente sente medo de alguém mais fraco por completo.
Decái sobre ele com loucura e violência, como se espancasse a si mesmo, por ter vida, por ter sentimentos.





Terça-feira, Dezembro 11

A crença
os sons
os gritos.

A elasticidade.

Ao cair, ainda me sentia viva
nada de tato
olfato talvez
gosto de merda, cheiro azedo.
Me misturei na vida, me perdi na água, tropecei do abismo.

Fim.








Queda.





Quinta-feira, Dezembro 6

caminhos.

Acordei enquanto abria a porta
e senti nela o vazio de entrar
o vazio de permanecer ali naquele local.

O vazio dos passos no chão
o vazio das vozes
e as letras que se escrevaim em desespero por um papel azul e branco.

Não é a mais a poesia que move a angústia
por sombras que mentem com presente nas mãos.
Dizendo sem saber um sentimento vazio de si
por falta de sentido dado ou acolhido.






Continuei a andar pelo chão,
que reluzia de leve, a sola dos meus sapatos.
Um par velho... Pensei: "Preciso de tênis novos"
Mas tênis azuis não cobrem o vazio de existir,
e tentar sempre, continuamente, tentar existir de forma proveitosa.

Mais uma porta se ergueu.
Novamente vazia
oca.

Dedos, mãos, face, e culpa
transportaram-se para o outro lado dela.
"Não há nada nesse ambiente, que me dê alegria."
A permanecer sentado, esquecendo um mundo
inteirinho sendo jogado fora
por uma janela de vista larga
linda
e de repouso imenso.



Penso
mas não existo.
Acho que existir,
é não pensar.





Terça-feira, Dezembro 4

visões subsequentes.

Arrastando seus longos dedos pelas parades castas
a orientar sentidos de uma vida sem sentido.
Em seus olhos vejo fogo, o reflexo da janela em chamas
por meninos que construiam um foguete, visto em seus sonhos de mentira.
Agora correm, aparavorados pela cor de sangue que se forma pelo ar, e suas narinas queimam.

Seu cabelo já caiu,
pela química.
Reumático. Hipocondríaco. Nicotinado. Viciado.
Horas e horas em soro. Em sonho. Torporizado pelo ar, artificial e doentio.

Descansa sua culpa em uma cama suja
lençóis encardidos e cinzas pela cabeceira.
Meia-luz, mas não proposital. Mal cheiro, lamúrias, papéis.
Uma cara de desesperança crônica, invadida ironicamente por violentas vontades de se jogar
pela janela, ali, aquela janela, a queimar em desamor.
Onde as crianças viam seus reflexos sorridentes, e agora vêm, apenas, suas faces chorosas ruidosamente a reclamar de um plano por água abaixo.

Uma parede. Vidas intensas. Sonhos e a falta deles.
Um mundo. Vidas. Sonhos que se cruzam ou não.
e
a
Queda.





Domingo, Dezembro 2

.

Se eu pudesse permanecer
olhando pro teu rosto
Valeria a pena, mesmo que por isso apenas,
enchergar todas as coisas ridículas do mundo
E por um mísero segundo,
encontrar sua face de entardecer.

(29/11/2007 23:37.pm)