Quinta-feira, Julho 31

Saliva

Em uma casa abandonada, se encontrava um moço de meia idade, amarrado pelos membros ao chão, dormindo profundamente. Uma, daquelas bem cascudas, das quais me abstenho de dizer o nome, passeava próxima aos dedos de sua mãos. O vento bateu uma das partes da janela e isso fez com que o homem robusto acordasse. Assustado, e é óbvio, sem nada entender, percebe o estado em que se encontra. Passa por alguns minutos de desespero tentando se soltar, mas o esforço é em vão. Estava muito bem amarrado, sabe-se lá por quem.
-- Que brincadeira de mau gosto é essa? – pergunta, olhando ao redor, vazio.
Não reconhece nada além de seus pequenos companheiros . Ou companheiras. É. Estavam diante de seu corpo trêmulo, inteiramente domável, seus maiores medos. Os temores dos quais corria e agora, ironicamente, não haveria de fazer nada.
De seu choque inicial sucedeu uma angústia inominável, uma repulsa ao que via que não lhe cabia no peito.
Uma delas, a maior delas, foi crescendo diante de seus olhos. Enorme, ele conseguia ver todas suas curvas ásperas que nunca pudera. Do que adiantaria gritar? Com que voz?
Era a visão mais terrível que algo poderia lhe conceder. Era a pior tortura que poderiam lhe aplicar.
E então, com a delicadeza e classe de uma rainha subindo a seu trono, escalou-lhe pelo rosto seis raquíticas patas. Num sacudir estonteante de cabeça, tentava desesperadamente livrar-se da visita inconveniente, mas o esforço de nada valera. Sentiu o pisar leve nos lábios secos e o ralhar das longas antenas no céu de sua boca. Dela só via o vulto. Sentia o cheiro azedo, fétido. Uma massa negra a observar o terreno abismal de seu ser. Ele, antes tão indiferente ao mundo rasteiro, sentia-se agora abaixo dele, muito abaixo dele...
Estava em transe, quase em desmaio, mas ainda pode sentir o ataque final. A pequena veterana seguida de seu coro asqueroso, aquele grupo bestial, iguais em gosto, cheiro e comportamento, invadiam-lhe tão pateticamente, juntas, os confins jamais pisados de seu interior medroso.
Adormeceu.
Não sei ao certo quanto tempo depois, sentiu baterem-lhe na cara. Abriu os olhos, esteve sonhando?
Oras, uma criança emburrada a estapear sua face.
-- Seu estúpido, não era pra come-las. Ah, devolva-as, são minhas! – E o garoto catava uma por uma, das que sobraram, armazenando-as em uma caixa de papel. Em seguida desamarrou-lhe as mãos, deixando os pés pra que ele mesmo o fizesse, e deu-lhe as costas batendo a porta do lugar desconhecido e sujo.
Um peso no estômago. O gosto amargo. Sonhava?
Era uma criança-demônio, brincando de ser Deus.






Quinta-feira, Julho 24

Esperanças... são as únicas que sobram.





Terça-feira, Julho 22

De manhã meu desjejum foi um cigarro, vendi minhas preciosidades em troca
de alimentar meus sonhos, e tive uma tentaiva frustrada de me aculturar.
Comi, vorazmente, o que dizem ser pros carentes e conversei com os mesmos.
Evitei expor minhas lástimas e amei como sempre o meu amor que é pra sempre.
Me vendi, incluido neste todo meu intelecto, que mesmo pouco, me valhe de muito.
Ajudei-me com meus sonhos, enchi-me de boas esperanças e bons fluidos e não larguei
por nada o que desejo de lado, apesar de ser massacrada diariamente frente aos
grandes portões eletrônicos, grandes muros, residenciais, shopping, lojas caras,
restaurantes chiques...
O que é que eu sou para o mundo, além de um cpf, um comprovante de residência,
e uma foto 3x4?
Eu sou pra mim um futuro incerto a andar por ruas apagadas, ambulante.
A passar por outros que são apagados também, e eu vou com eles, mesmo não sendo eles,
me compadeço de suas vidas, de seus sofrimentos.
Acho que ninguém ama o próximo quando ele não está bem vestido,
com perfumes bons pra poder abraçá-los, quando eles não têm nada a oferecer,
culturalmente ou financeiramente, quando não te trazem flores no dia dos namorados
ou dizem coisas bonitas pra alegrar sua mente dispersa e embebida de pseudo-depressão
causada por músicas.
Nós comemos a vida, e tentamos salvar o mundo de catástofres, mas continuamos a
comer a vida e a debruçar sobre ela toda nossa fome de tudo. Concorda-mos que estamos
caminhando pro buraco, mas caminhamos mesmo assim, a comer literalmente toda a
natureza e em troca deixar o egocentrismo de nossas ações em forma de merda!
Consumimos, sabe-se lá pra quê, já que realmente o que sobra são restos a serem comidos
pelos vermes, e sua alma. Sua alma, a única coisa que valera de tudo que viveu...
O alimento dela é o mais barato, porém o mais valioso. O que é o corpo que vocês
cultuam tão religiosamente sem a alma que vocês desperdiçam tão mediocrimente?
Não desperdiço meu tempo com religião, mas me transformo em sentir as energias boas
que podem vir das pessoas e da terra, que pode fluir entre nós e do espírito humano
que é tão cheio de possibilidades e coisas boas a se alimentarem.
A parte de tudo que sofro pelo mundo e por mim que estou nele, sinto felicidade por pensar
que não sou mais uma a andar e desviar das anomalias da sociedade e constituir meu
mundinho tão meu e tão colorido que chega a beirar o perfeito, mas que existe só em mim.
Sinto felicidade por sentir tristeza pelo mundo, por não ser cega e por não querer ser cega.
Alegro-me pela vida e pelas possibilidades, mesmo ranzinza e cabisbaixa, e desprezo o ser
humano como único.
Fazer as coisas que precisam ser feitas, é a única coisa que se tem a fazer.





Achei você e seu gosto amargo perdido nas ruas escuras demais,
enquanto contava as pedras das calçadas tão pouco movimentadas e impedidas de paz.
O que é que fosse que trazia junto ao peito era inquieto e pequeno,
mas era fúlgido e chamava a atenção, acho que só minha, mas chamava.
Quem era você?
Me perdi em contrastes morais, não perguntei por quem atendia
ou se sonhava com o céu quando ele estava cheio de estrelas.
Quem era você que carregava a esperança morta dentro de uma caixa de vidro?





Terça-feira, Julho 15

eu tenho sede do mundo inteiro
sede de tudo que não posso tocar
e frustração congênita...

até quando terei que renegar minhas vontades pela mera má formação hierarquica e moral do mundo?

estou à beira de uma convulsão.
a cuspir o sangue que ganhei genéticamente
a renegar todas as raízes que estão em mim.

estou em processo de desidentificação.





Sexta-feira, Julho 11

frio

Espreita por entre frestas tracejadas em doces rios... Ingênuo ser de cera.
A ignorância é algo a colidir com seus medos, e você chega a acreditar que não.
As crianças estão lá fora...
O céu está tão fora de seu cubículo imundo quando como você esteve fora de si.
E você não canta, nunca.
Quem me dera ter de ti o tomo em todo, nas mãos a vida como um todo... O coração, mesmo em pedaços, em todo.

A arte gela os espaços onde deveriam ser quentes... Expressa, mas não cessa.
Tomai de mim a vida, porque dela já não sou; nela já não estou.





Quinta-feira, Julho 10

eu canto o desespero
de viver trancafiado em meus próprios medos.





se move na esperança de ser alguém em meio a ilusão da humanidade.
não reluz,
tem dificuldades com as palavras
permaneceu trancafiado a anos
esta perplexo frente o feito imundo e inumano...
dorme acordado
e domina a fome com covardia.





i'm back

um espaço de tempo, pra curar o pensamento.





alma

estúpida, transparece o nada.