Sexta-feira, Outubro 31

Traduzindo em palavras

Recalcando o sentimento, em um pedaço de espaço-tempo e junção de voz.

Ela se vai pelo campo de pedras, enquanto aqui seu lugar ainda está quente, e seu sorriso ainda não se foi... Ela se vai, ríspida e intrépida menina, em seus sapatos baratos e suas roupas velhas, a cantar sua canção que não é de ninguém, a juntar pedaços de mundo e colá-los em arte interior. Incrível seu sorriso ainda ser o mesmo em meio a decadência inevitável das ruas, cheias de marasmo e insônia, cheias de horror. Incrível seu amor ainda ser tão doce, tão completo e fiel em meio ao desafeto da humanidade, que caminha incessantemente para um abismo.

Sua completude algum dia ainda se vai, eu sei. Vai se esvair em fumaças fálidas, líquidos amargos, e sussurros roucos soprando seus ensandecidos cabelos.
E tanto queria eu, segurá-la na queda, no tropeço das palavras, na agonia, na dor...
Tanto queria eu, ser ela, mas mesmo sendo, tão pouco a sou.





Terça-feira, Outubro 21

.

Ela só quer moer a carne de seu coração, e ver jorrar
de dentro dele
as amargas esferas de dor
inomináveis.





Segunda-feira, Outubro 13

Eu

Eu aceito meus defeitos,
corro atrás dos meus direitos,
não aceito desaforos, injustiças, repressões...
Minhas idéias não condizem
com a leis de ordem e do progresso.
Estou à beira de um ataque de nervos,
a cuspir o sangue que ganhei genéticamente,
a renegar todas as raízes que estão em mim!
Porque eu não quero carregar nada do que foi feito no mundo até hoje.
Sou reconhecida por uma foto 3x4, e por um número escroto
que me deram como Comprovante de Pessoa Física.
Mas eu não quero ser uma pessoa física, nem numérica,
nem cidadã.
Eu ainda quero a liberdade de ser apenas uma pessoa,
com todas as vontades do mundo!
E que Deus me livre de cair nesse desatino que
chamam de sociedade.





Segunda-feira, Outubro 6

Dança

Quando a gente canta, toda nossa alma, todo nosso pranto, juntam-se nesse cantar.
Quando o vento dança, nessas danças nuas, vai-se pela rua levando meu olhar.





Sexta-feira, Outubro 3

Estouro.

Um estouro. Cheguei na porta.
Entre cartas de baralho, copos de bebidas e cinzas, respousava sua mão direita. Frouxa, imóvel, hostil... Fixei um olhar impaciente, esperançoso de que algum suspiro brotasse entre sua instância. De que algum sopro de vida aliviasse meu pesar.
Lembrei-me do estouro, aquele arrebentar estardalhado que invadiu por certo meus ouvidos. Lembrei-me com peso no peito, e olhei pretenciosamente dando um passo a frente.
Reluziu na base de sua nuca a desordem a desabrochar langue. Um derramar cadente e verniz, infeliz.
Me desfiz em pó. Me derramei também junto a ele.
Ao arredar meu olhar, encostei-o no seu, agora a desabar firmemente pela última vez. Os olhos grandes, arregalados e negros feito criança se fecharam. A criança que eu adorava segurar entre os dedos que agora tremiam.
Junto com seus olhos, foram-se os meus, a derramar lágrimas de ninguém, e de alguém tão escandalosamente imóvel como eu. Senti o pesar das pálpebras, a náusea, a dor.
Eu não o vi morrer, tão pouco vivo o senti, mesmo tendo tido seu último dia pra mim.